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Praça do Relógio - 10.12.2020 - foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O Brasil atravessa tempos difíceis. A pandemia do Covid-19 pôs a nu as desigualdades e expôs as condições inaceitáveis de injustiças sociais, que se escancaram em todos os setores – na saúde, na habitação, na segurança, no transporte, na educação e na cultura. Enquanto isso, avolumam-se os ataques dirigidos à ciência por parte de agentes públicos e privados, cuja tradução paroxística se encontra nas fake news, disseminadas em algumas redes sociais. Tempos difíceis, tempo de desumanidade e desinformação.

“... a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ainda no meio da tristeza!"                                                             Guimarães Rosa

As universidades, por serem instituições de produção do conhecimento e do saber científico, têm sido um alvo preferencial do obscurantismo, inclusive as estaduais de São Paulo.

O cenário exige que tenhamos coragem, inteligência e esperança. Exige uma atitude. Para a universidade que quer viver e defender a vida, ficou impossível seguir impassível.

No campo da saúde, a política estatal errática - e que produziu milhares de mortes - só acentuou as desigualdades e a pobreza. A desagregação social piora. Esse estado de profunda crise social e institucional impõe, por conseguinte, a necessidade de conceber políticas para enfrentar os problemas da educação, da produção do conhecimento e da ciência, da justiça social, do desenvolvimento sustentável e dos direitos humanos. É igualmente inquestionável que esse conjunto de princípios civilizatórios está ameaçado no Brasil.

A Universidade de São Paulo, a mais distinguida instituição pública de ensino superior no país, não pode estar alheia a tudo isso; tampouco pode se resguardar diante de problemas tão agudos. Seu papel social, derivado do seu caráter público, bem como da excelência da sua produção intelectual e científica, exige responsabilidades e compromissos com valores superiores.

Se a reitoria da USP quer ver crescer o protagonismo da nossa instituição nas ciências, na cultura e nas artes deve saber estender as mãos e dialogar. É hora de dialogar com a própria comunidade, com a sociedade paulista, com a sociedade brasileira e com a comunidade acadêmica internacional. Se queremos uma universidade que brilhe e aponte caminhos, se queremos uma universidade na vanguarda do conhecimento, se queremos uma universidade que ensine e inspire nosso país e nossa gente, devemos declarar que queremos a liberdade acadêmica, não a subserviência, que queremos a democracia, não a autocracia, que queremos a inclusão, não mais a exclusão, que queremos a diversidade, não mais o preconceito.

Responsabilidade social, protagonismo e excelência devem ser as concepções fundamentais a orientar a USP nesse importante e grave momento; emerge, em suma, das próprias condições de garantia de uma universidade pública, inclusiva e de qualidade.

 Afirmação de Princípios e Compromissos

 

Comecemos, então, falando sobre o futuro da USP. Não são poucos os desafios contemporâneos que as universidades enfrentam no Brasil e no mundo. Pelo menos desde os anos 1990, elas estão submetidas a um intenso processo de transformações. A pandemia aprofundou a gravidade dos dilemas e acelerou o tempo da história. Que caminhos tomar?  As respostas não são óbvias. É preciso pensar para enxergá-las. É preciso agir para forjá-las.

Habitualmente, o debate sobre os rumos a serem seguidos pelas Universidades é caracterizado por um confronto entre duas posições extremadas. A primeira, afirma que a internacionalização é a melhor maneira para construir reputações científicas e garantir prestígio mundial, elegendo os rankings como indicadores de qualidade. A outra enfatiza a missão civilizatória das universidades, defendendo a autonomia como um fim em si mesmo. Para os que se identificam com a primeira posição, o descolamento da arena internacional produziria uma instituição provinciana, autorreferida e irremediavelmente divorciada da produção científica de vanguarda. Contrapõe-se a ela a defesa de valores mais amplos, não exclusivamente emanados do exclusivo domínio das pesquisas.

O maior problema originado de visões polarizadas não se refere às eventuais concepções equivocadas presentes em cada posição; ao contrário, há bons argumentos e boas causas em ambos. O maior problema é que os defensores de uma ou outra posição não têm sido suficientemente plásticos para acolher argumentos diversos dos seus. Ora, uma universidade que não seja capaz de exercitar o diálogo perde substância, uma vez que a busca de entendimento é parte integrante da vida acadêmica e a define. A supressão do diálogo produz a esterilização do pensamento, quando não redunda em conflitos estéreis, expondo a Universidade desnecessariamente, além de exacerbar os ânimos daqueles que a criticam. Finalmente, as dissensões internamente irresolvidas têm provocado a proliferação de normas em excesso, resposta equívoca frente aos problemas que emergiram no quadro das redefinições dos papéis das universidades, nas quais a burocratização da vida acadêmica é sintoma. Sua contraface e consequência expressam-se na construção de decisões surgidas em gabinetes, em detrimento da necessária participação das diversas categorias universitárias. No entanto, os desafios postos no presente - e que apontam para um futuro incerto - exigem criatividade de soluções e ousadia de atitudes.

É tempo de mudar. Se a mudança é a dinâmica da existência, nas instituições é imprescindível que esteja alicerçada em bases sólidas, sob pena de se pôr em risco o patrimônio longamente construído. Somos uma instituição ampla e diversificada, cuja produção cultural e científica adquiriu crescente reconhecimento mundial. Ao mesmo tempo, a USP conheceu algum destaque por ter implementado políticas afirmativas, ampliando vagas para o ingresso nos seus cursos ao adotar as cotas sociais e étnicas. A USP do presente é uma grande universidade internacional e, ao mesmo tempo, uma instituição que se engaja nas causas de combate às desigualdades. Essas duas iniciativas virtuosas não são contraditórias e não devem ser vistas de modo excludente. Ao contrário, elas se completam e realizam-se reciprocamente.

Falemos mais sobre a USP do presente. O momento atual exige de nós o aperfeiçoamento e a garantia das políticas de inclusão social, assim como demanda ações que garantam a excelência na pesquisa e no ensino. As experiências internacionais demonstram que a diversidade cultural, nacional, étnica e social contribui para a excelência acadêmica e não a contradiz, tais políticas engrandecem a Universidade e não comprometem a qualidade da sua produção científica. Por essa razão, a construção de uma agenda de consenso na área é perfeitamente factível, sendo capaz de articular de forma eficiente a responsabilidade social, o protagonismo científico e a excelência acadêmica. Diante desses desafios do presente, as respostas exigem criatividade e antecipação do futuro, tornando a USP parceira na construção de uma sociedade mais justa e humana. 

Nesse sentido, o momento exige encontrar um solo comum de diálogo, sem o qual a Universidade corre o risco de se perder no emaranhado de concepções dissonantes que só alimentam disputas internas. O próximo período reitoral demanda ousadia, nutrida no compromisso de priorizar o enfrentamento das dificuldades que surgiram durante a pandemia, tanto para compensar as perdas no ensino e na pesquisa, quanto para estabelecer parâmetros novos e superiores em todas as áreas, inclusive no convívio acadêmico, tendo em vista que os anos vindouros serão muito diversos daqueles anteriores à pandemia.

A USP demandará de suas lideranças capacidade para entender o momento, qualidade para unir nossa comunidade em torno de ideais e metas arrojados. A tarefa não é de pouca monta. Uma universidade não pode existir sem diálogo, sem o espírito desarmado, sem o genuíno apreço pelo reconhecimento do outro. É necessária ousadia, mas nos move a certeza de que a USP merece um futuro grandioso; especialmente a crença de que o seu futuro se confunde com o destino do país.   Façamos desta conjuntura a hora da mudança. A USP de hoje carece de utopias que possam projetar os tempos vindouros.

Consideramos prioridade para os próximos anos uma gestão voltada para o ser humano, que não perca de vista a integridade das pessoas. Queremos nos afastar das condutas excessivamente administrativas e burocráticas, que invertem os valores que sempre animaram a vida universitária, baseada no entendimento, na sociabilidade entre pares, nos princípios democráticos. Decisões puramente administrativas, sob pretexto de tornar produtivos os processos de gestão da Universidade, acabaram por normatizar excessivamente o cotidiano acadêmico, minimizando a imaginação criadora. Por força da burocratização, a vivacidade da produção científica corre o risco de se adaptar às normas e tornar-se prisioneira dos indicadores de produtividade. Uma universidade viva não pode prescindir do relacionamento pessoal, da empatia fraterna. Especialmente não pode naturalizar a troca pessoal como critério para encaminhar solicitações, por mais justas que sejam.

Como sabemos, a missão formadora das universidades não se realiza, caso não afirme a ciência e o conhecimento como valores supremos, se não for capaz de expandir os horizontes culturais e atribuir sentido ético às nossas existências. Nessa perspectiva, é vedado às universidades, dignas desse nome, desconhecer os dramas pessoais de membros de sua comunidade e, sobretudo, não podem ser indiferentes ao sofrimento. Por isso, afirmamos, desde já, que é nosso compromisso de identificar problemas e necessidades das pessoas que se dedicam à Universidade de São Paulo, independentemente da categoria, sejam estudantes, docentes, servidoras e servidores.

Nesse capítulo, em especial, lembramos expressamente o apoio institucional para a permanência estudantil nas moradias do CRUSP e nos alojamentos dos campi do interior; das políticas de inclusão social e as medidas de apoio à carreira docente, com ênfase nos problemas salariais e as condições de trabalho, exigência do exercício profissional digno de todas as categorias. Nos últimos anos a USP enfrentou duas situações que resultaram em severos prejuízos às pessoas: uma profunda crise financeira; e agora, os graves efeitos da pandemia. O momento que se avizinha exige trabalho e entendimento de todos, valorização da qualidade de vida da comunidade uspiana, condição mesma de ultrapassagem da grave crise que a todos atingiu.

É por tudo isso, que apresentamos a nossa proposta para o novo período reitoral da Universidade de São Paulo, animados pela crença na necessidade de mudança. Pensar, dialogar e agir no presente para criar e fortalecer o futuro.

Acrescente-se que consideramos essencial que a Universidade seja capaz de se transformar em uma interlocutora estratégica da sociedade. Para tanto, a nossa proposta estrutura-se em cinco eixos norteadores gerais: